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sexta-feira, agosto 19, 2011

PÃO QUENTINHO CXLII



É DEUS QUE TE FALTA,  CARA-PÁLIDA 

 “Receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade...” (2Co 11.3)

Há menos de um século nossas avós passavam algumas horas do dia preparando a comida no fogão a lenha, outras tantas horas esfregando roupas num tanque e estendendo-as no terreiro para quarar (significa: “clarear roupa ao sol”) e depois levavam um longo tempo passando com ferro à brasa. Tudo era difícil e demorado. Era um período em que se sonhava com uma tecnologia onde a vida seria mais fácil, haveria mais tempo livre e as pessoas seriam mais felizes. 

Esse tempo chegou. Compramos comida pronta nas prateleiras dos mercados ou a fazemos em minutos no microondas. Lavamos toda a roupa em modernas lavadoras. Hoje todos possuem o seu celular, computador e um carro na garagem. Mesmo as classes mais pobres vão ao paraíso das compras. É inegável que todas as áreas da vida sofreram uma tremenda revolução. 

Essa profusão de possibilidades proporcionadas por um mundo globalizado atingiu também a religiosidade das pessoas. Há religiões para todos os gostos: orientais, esotéricas, africanas ou xamanistas. E de bônus pode-se buscar nos espaços holísticos, a meditação, yoga, astrologia ou wicca. 

Na fé cristã agora o serviço é “a la carte”. Sob o argumento de que a mensagem da fé antiga já não consegue mais atender aos anseios do homem moderno, passou-se a formar igrejas “especializadas” que buscam a satisfação total da clientela: cada um escolhe a que mais se adapta a seus gostos e necessidades. Há um grande conglomerado da fé que foca seu marketing nas enfermidades; um outro desenvolve atendimento para empresários que buscam solução para seus negócios; outro, oferece ascensão social para as classes C e D; e também já temos comunidades que atendem seus fieis por orientação sexual. Enfim, é a especialização da fé centrada na “necessidade” dos clientes. 

Diante de tantas possibilidades, não podemos deixar de perguntar:
O mundo está melhor? 

As pessoas estão mais felizes e com mais tempo para ficar com a família, passear e compartilhar de momentos juntos? 

A imensa variedade de doutrinas religiosas tornou as pessoas
menos individualistas, mais tolerantes, mais preocupadas com o coletivo?
Essa abundância de expressões de fé tem levado as pessoas a serem mais tementes a Deus, são mais enternecidas? 

A percepção é clara: apesar de todos os progressos e a despeito das variedades de escolhas ao nosso dispor, o mundo não está melhor.
As longas viagens do passado encurtaram, mas a distância entre as pessoas aumentou. “Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas ainda não aprendemos a andar como irmãos” (Martin Luther King). 

Ao mesmo tempo em que diminuíram as dificuldades nas rotinas diárias, aumentou em proporção inversa o consumo de álcool, antidepressivos e drogas para dormir. A ansiedade tomou conta dessa geração. Males antes raros, como a Síndrome do Pânico ou a Síndrome de Burnout surgem como resultado do mal estar da modernidade. 

As pessoas estão perdendo a capacidade de sentir, e a insensibilidade está dominando a vida. Cada vez mais é preciso exagerar, chegar aos limites, porque os sentidos estão ficando embotados. Um bom show se mede pela potência dos watts, um filme pela quantidade de efeitos especiais, o sexo pela sua explicitude. São tentativas de estar o tempo todo estimulado por “drogas” que tentam manter vivas na UTI almas adoecidas. 

Michael Jackson precisou construir um imenso parque de diversões só pra ele, Neverland, imaginando que ali seria feliz.... É uma Terra do Nunca, literalmente. Imelda Marcos, esposa de um ex-ditador filipino, ficou famosa porque possuía três mil pares de sapatos. Se usasse um por dia, levaria oito anos para experimentar todos. 

Este é o mal do nosso tempo: a insensibilidade. Perdemos a capacidade de sentir alegria... de sentir prazer... até mesmo sentir aquela tristeza genuína que cura e nos torna humanos.

Quem vive à busca de sensações no mundo, irá fazer exatamente o mesmo quando se tornar religioso: se não houver show, decibéis, luzes, pirotecnias, fumaças.... não conseguirá “conectar-se” com o Sagrado. 

Olhe para um leão enjaulado. Ele tem comida e tem segurança. Entretanto ele está visivelmente estressado e anda impaciente de um lado a outro. Não, ele não necessita de mais comida, e pouco se importa de ter proteção naquele lugar: ele quer liberdade e satisfazer o seu sonho que está nos prados selvagens. 

Da mesma forma você não precisa de um celular com design mais moderno com 4 chips, nem do novo ipad, tablet ou um processador mais potente no seu laptop. De igual modo, você não precisa ir à busca de estímulos sensoriais com a sensação gospel do momento.... Pare com esse autoengano. Seu problema não é este. 

Tanto o descrente quanto o religioso precisam de Deus! Assim como Jacó, precisam buscar a Deus no silêncio, na penumbra, em lutas nas madrugadas insones... só você e Ele. Não mais o “deus” televisivo das promessas fáceis e fúteis, não mais o deus do “venha a mim e acabaram os seus problemas”. Aliás, eu não creria num Deus que me tratasse como um boneco ou um animal enjaulado dando-me comida de hora em hora. Quero o Deus que liberta das amarras, que dá sentido às coisas – mesmo aquelas mais desagradáveis. Busco o Deus que espera que eu viva os sonhos que um dia Ele plantou em mim, o Deus que me faz crescer, me carrega no colo quando preciso, mas como Ele não me quer infantilizado o resto da vida, me coloca ao chão tão logo eu possa caminhar, e me diz: “Vai em paz... estarei sempre perto de você quando precisar, mesmo que não perceba a minha Presença”. 

É Deus que você precisa, cara pálida. Nada mais

Por Daniel Rocha, pastor dadaro@uol.com.br

Por Cris Corrêa

quinta-feira, março 24, 2011

PÃO QUENTINHO CXXXIX‏

OS ANÔNIMOS

“Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome” 
(Hb 6.10)

O Reino de Deus é constituído em grande parte de anônimos que nunca iremos saber os seus nomes, que nunca irão aparecer na TV, nem receberão medalhas por seus feitos, e provavelmente não será reconhecido em sua própria época o valor de seus gestos e palavras.

Num mundo midiático onde todos querem ter seus “quinze minutos de fama”, é quase um despropósito ser um desconhecido.  Por conta disso, muitos não querem apenas alcançar o panteão da fama, mas desejam também passar o seu modo de vida a um cortejo de “seguidores”: Ivete Sangalo comemorou a poucos dias 1 milhão deles. Agora foi a vez de Luciano Huck superar a barreira de 2 milhões. No mundo, a campeã de “seguidores” chama-se Britney Spears – uma pessoa cuja trajetória de vida nada tem a oferecer de virtude ou a ser imitado, mas 5 milhões de pessoas acham que tem.

No meio evangélico também é assim.  Certa “cantorinha” gospel, uma das campeãs de popularidade, usa esse instrumento para enviar pérolas de futilidade para o deleite de seus fãs. Seu espírito adolescente encontra eco no infantilismo da fé de seus seguidores. Não pude deixar de pensar que tudo isso é como um  grande “Big Brother” gospel: de um lado os voyeurs querendo saber da vida alheia, e de outro quem se julga especial para dizer as coisas mais irrelevantes possíveis, como:   “indo dormir....” ou “trocando fraldas do bebê...”. Os que estão do lado de cá provavelmente querem se ver realizados projetando suas vidas sobre o seu objeto de veneração.  Sinceramente, eu não sei onde isso vai parar.

Talvez tudo isso ocorra porque, assim como ocorre no mundo secular, crente também não gosta de caminhar ao lado de gente obscura – prefere os que carregam a aura da fama.

Porém, indo na contramão desses valores que se instalaram na alma de muita gente, o Evangelho – aquele verdadeiro – nos remete a uma forma diferente de vida. Nele, seus fiéis serão reconhecidos por Jesus justamente porque são anônimos.

É verdade que na bíblia encontramos alguns homens e mulheres que se destacaram. Mas, diga-se de passagem, que foi pela fé e amor que tiveram, e não pela capacidade de aglutinar fãs. Mas são a exceção, não a regra.

Sim, o Reino de Deus é assim: constituído por anônimos como a semente que cresce invisível e silenciosamente durante a noite. Mesmo quando se destacam fazendo boas obras devem ser transparentes e “invisíveis” o suficiente para que o Pai que está nos céus seja glorificado (Mt 5.16), jamais eles próprios.

Louvo a Deus pelos simples da bíblia ao qual nunca saberemos seus nomes, mas que deixaram a sua marca e fizeram a diferença por onde passaram.

Todos se lembram de Eliseu, mas qual o nome daquela menina judia, serva da mulher de Naamã,  que disse a ela que em sua terra havia um profeta que poderia ajudar o seu amo? Se aquela adolescente tivesse calado não haveria a cura e a conversão daquele general ao Senhor.

Qual o nome daquele garoto que se apresentou generosamente aos discípulos oferecendo tudo o que tinha – cinco pães e dois peixinhos – para alimentar uma multidão de famintos, possibilitando a Jesus fazer a multiplicação?

Qual o nome daquela mulher samaritana que entabulou conversa com Jesus, se converteu e em poucas horas tornou-se uma missionária chamando toda uma cidade para segui-la e ver  a Cristo?

Quem era aquela mulher siro-fenícia que confrontou a Jesus, dizendo que até os cachorrinhos comem do que cai da mesa?

Que fim teve aquele oficial romano que disse a Jesus para “mandar uma palavra” e o seu servo seria imediatamente curado?

São todos eles gente “sem nome”, que escreveram com suas vidas o Evangelho. Sabemos os nomes dos líderes e dos pastores, mas a  uma igreja só é possível subsistir se ela tiver inúmeros anônimos que fazem os arranjos de flores para a beleza do altar, consertam as goteiras no telhado,  cantam no coral (se solassem não seriam anônimos), se organizam para os mutirões, mas não recebem salários, nem têm seus nomes colocados em placas. Ao entrarem em seus quartos para orar, abrem as portas das prisões e sustentam a vida de milhares de cristãos pelo mundo afora.

O verdadeiro povo de Deus não é do barulho, das marchas, das gritarias nas rádios, da verborragia no ar, do “essa cidade vai ser abalada”... O povo de Deus tem uma presença santa e silenciosa. No século III Cipriano, viveu uma juventude dissipada e pagã converteu-se aos 35 anos para Cristo, ao conhecer os primeiros cristãos.  Escrevendo ao seu amigo Donato, contou:
“Vejo neste mundo bandidos nas estradas, piratas no mar, homens assassinados para agradar as multidões nos anfiteatros, e sob todos os tetos miséria e egoísmo. É realmente um mundo mau, Donato, um mundo incrivelmente mau. No entanto, no meio dele, encontrei um povo quieto e santo. Eles descobriram uma alegria que é mil vezes melhor do que qualquer prazer desta vida de pecados. Eles são desprezados e perseguidos, mas não se importam. Eles venceram o mundo. Este povo, Donato, são os cristãos... e agora eu sou um deles”. (Forging a  Realworld Faith, Gordon MacDonald -  Comentario na Bíblia Devocional Max Lucado). 

Povo silencioso, santo, pacífico, cordato, diferente e anônimo. Fazem suas orações, cantam seus hinos, abençoam as pessoas, perdoam quem os ofende, temperantes, respeitáveis, sensatos (Tt 2.2), se contenta com as coisas que tem (1Tm 6.8), fala com mansidão aos que se opõem (2Tm 2.25), um povo que ora em favor de todos os homens e dos que se acham investidos de autoridade, para que possam viver  “vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm 2.1-2).

Não se espante se na descrição acima você não viu o povo que você conhece como cristão. De fato, o que existe aí foi seduzido por “outro” evangelho que abandonou há muito esses valores. Mas você, não. Deus o chama para se juntar àqueles poucos que são fiéis e que provavelmente não serão conhecidos por mais que uma centena de pessoas por toda a existência. Não se preocupe, porque Deus o conhece e escreverá o seu nome no Livro da Vida. Isso é o que realmente conta.

Por Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br

Por Cris Corrêa

sexta-feira, janeiro 14, 2011

PÃO QUENTINHO - CXXXIV‏

DEUS ESTÁ NO CONTROLE?

Adianta orar? Deus sabe o que está acontecendo? Se sabe, por que deixou acontecer? Ele pode resolver? Ele domina o mundo ou se retirou dele? Ele não podia ter impedido o deslizamento do morro... o tsunami.... as torres gêmeas...?

Essas são perguntas que frequentemente aparece nos lábios, não apenas de incrédulos  – que resolvem cobrar de Deus tudo o que acontece de ruim, mas também de alguns setores do mundo cristão, que parecem mais propagadores de um “deísmo”, ou seja, uma postura filosófica que admite Deus como criador do mundo, mas que retirou-se para um lugar distante, não mais intervindo em sua Criação.

Vivemos numa época em que Deus é visto como “fraco e impotente” e incapaz de resolver os grandes problemas da humanidade. O escritor Nobel, Elie Wiesel, um judeu sobrevivente dos campos de concentração, reage a isso dizendo que “se Deus é assim, acho que seria melhor se ele renunciasse e entregasse seu cargo a alguém mais competente”.

Compreendo que é difícil falar do poder e da soberania divina em meio a tantas coisas desagradáveis acontecendo ao redor. Não é incomum cristãos lançarem uma ponta de dúvida aos céus, perguntando se Deus estava realmente “prestando atenção” naquilo que tantos aborrecimentos lhes trouxe.

Entretanto, temos muito a aprender com a revelação dada pelas Escrituras, onde encontraremos de modo incontestável a verdadeira natureza, de que o Eterno tem domínio sobre todas as coisas, fatos e acontecimentos. Erramos, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Pretendo começar por Jesus:

O Mestre desejava preparar um lugar para passar a Páscoa com seus discípulos, e eles perguntam: “onde queres que a preparemos?”. Ele diz: entrem na cidade e lá vocês encontrarão um homem que está levando um cântaro de água e sigam-no até a casa que ele entrar (Lc 22.10).

Relato impressionante: Jesus está a quilômetros do local, os discípulos ainda não partiram, e ele sabe que no momento que eles chegarem à cidade, estará passando alguém com um vaso na cabeça e que entraria na casa previamente escolhida.

Tem mais: Jesus precisava de um jumentinho para a sua entrada triunfal em Jerusalém  e manda dois discípulos entrarem na aldeia e lá achariam presa uma jumenta e, com ela, um jumentinho, e deveriam desprende-la e levar-lhe (Mt 21.2). Quem colocou ali aqueles animais, e como soube Jesus?

Mas ainda não acabou: Cobradores vieram a Pedro exigir-lhe duas dracmas de imposto do Mestre.  Jesus manda Pedro ir ao mar, lançar um anzol e o primeiro peixe que ele fisgasse acharia um estáter (moeda grega de prata), equivalente a 4 dracmas, o suficiente para ambos (Mt 17.27).

Até mesmo para coisas triviais e aparentemente insignificantes como os pardais, Jesus diz que nenhum deles cai na terra sem o prévio consentimento de Deus. (Mt 10.29).

Ora, esses fatos não são apenas um exercício de predições e conhecimento sobrenatural, mas é uma clara mensagem que Ele cuida dos detalhes, que nada foge ao seu conhecimento.

Outro ponto do qual muitos duvidam é sobre a real capacidade de Deus ter algum controle ou domínio sobre o crescente poderio econômico e militar das nações. 

Na verdade, para Ele, as nações são consideradas “como um pingo que cai dum balde, e como um grão de pó na balança” (Is 40.15). Deus não se impressione com a dominação que elas aparentemente detêm. Onde estão hoje os hunos?  Os grandes impérios romanos, gregos e egípcios?  O Britânico – onde o sol nunca se punha?  O muro de Berlim? A temível União Soviética? Pra onde caminha o outrora poderoso “tio Sam”? “Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles todos” (Sl 2.4).

Fica muito claro o poder do Eterno quando manifestou a sua decisão contra a então invencível Assíria: “Como pensei, assim sucederá, e, como determinei, assim se efetuará, porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois o invalidará?” (Is 14.24-27)

O Seu poder e a Sua determinação são tão tremendos que Ele chega a desafiar:  “Agindo eu, quem o impedirá?” (Is 43.13).

No campo individual, Deus tem propósitos para nossas vidas. No drama de Jó, que no fundo é o de todos nós, ele reconhece a soberania divina sobre os acontecimentos de sua vida, afirmando: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).

Deus não está à mercê dos acontecimentos. Ele não é pego de surpresa por nada.

O cosmos, as estrelas e as galáxias não estão aleatoriamente espalhadas por aí: “Ele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; nem uma só vem a faltar” (Is 40.26). Astrônomos costumam batizar estrelas com nomes porque eles não sabem como o Altíssimo as chama.

Não se trata de  mera linguagem poética ou enlevo emocional. A todo o momento o céu está invadindo o espaço humano, trazendo Deus entre nós.  Trata-se de um Deus totalmente bom, poderoso, competente, que cuida e se interessa por cada um. Nada pode nos separar de seu amor: nem Satanás, nem instituições, nem a maldade, nem tribulação, angústia, perseguição, ou morte.

Não existe um cristão verdadeiro que já não tenha experimentado por diversas vezes o cuidado, o zelo, e as surpresas que Deus gosta de fazer. Aliás, a bíblia diz que “os olhos do Senhor passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele” (2Cr 16.9).

Blaise Pascal (1623-1662) nos deixou uma belíssima oração que nos ensina muito sobre o cuidado divino:

“Somente tu sabes o que me é conveniente. És meu Mestre soberano. Opera em mim conforme a tua vontade. Concede-me, ou toma de mim, de acordo com teu intento, não o meu. Sei apenas, Senhor, que devo seguir-te e não te ofender. Ademais, não sei o que é bom ou ruim. Não sei o que me é propício, saúde ou doença, riqueza ou pobreza, nem qualquer outra coisa deste mundo”.

Creia-me: Deus sabe todas as coisas, e Ele está agora ao seu lado, cuidando de ti.

Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br


segunda-feira, dezembro 20, 2010

PÃO QUENTINHO - CXXXI‏


PERDAS & DANOS

Normalmente lidamos mal com as perdas. Ninguém gosta de ser privado daquilo que possui.  Fica um vazio, um buraco na alma, um gosto acre na boca. Mas a vida é feita de perdas, faz parte do crescimento de nossa humanidade. Se a vida constituísse apenas de acúmulos,  talvez a primeira conseqüência fosse uma incapacidade de dar a devida importância àquilo que se possui, já que nunca haveria de perde-lo.

Temos muito a aprender com as perdas. Ao saber que podemos não ter mais aquilo que amamos, tendemos a valorizar, estar mais junto a eles, e aproveitar de sua presença. Cada minuto que passamos ao lado de alguém, onde reconhecemos nele a finitude e a transitoriedade, leva-nos a tornar aquelas horas de mais profunda devoção.

A inevitabilidade da perda nos faz mais sensíveis, ternos e afetuosos. Consideraríamos doar tudo o que possuímos para ter de volta alguns minutos com o filho amado agora distante, a mãe que partiu, ou o pai com Alzheimer, que não reconhece mais os seus.  Só posso mensurar o real valor daquilo que possuo a partir do momento que não mais o tenho.

Creio que a possibilidade da perda nos ensina a valorizar as pessoas, a fortalecer os relacionamentos. Sabedoria é reconhecer que nada é para sempre.

Há perdas que são resultantes de nossas decisões pessoais, e elas vão nos  ajudar a definir quem somos e o que queremos. É muito importante a celebração de um casamento, porque permite aos noivos  tomarem uma decisão sobre suas vidas. O “sim” que um promete ao outro, implicitamente é também um “não” à forma de vida de um descasado e aos antigos pretendentes – daí a dificuldade de muitos chegarem a este momento.  Entretanto, o nubente cheio de amor entende que aquelas perdas nada significam diante da pessoa que está à sua frente.

As perdas que advêm de uma decisão, sempre serão renúncias que fazemos em prol de algo maior. Albert Schweitzer, teólogo, médico, músico, e um dos maiores intérpretes de Bach, abriu mão de uma confortável vida na Europa, no início do século XX, para criar um hospital no coração da África e passar lá o resto de seus dias em meio à malária e a leprosos. O que ele perdeu nada significava para si.

É justamente isso que o apóstolo Paulo nos ensina ao dizer que aquilo que era lucro, passou a considerar como perda, por causa de Cristo. Ao comparar a suprema grandeza do conhecimento de Cristo, ele preferiu perder todas as coisas e as considerou como “lixo” (do Gr.skubalon: lixo, refugo, esterco) para poder ganhar a Cristo (Fp 3.7-8).

Há perdas que são benditas. Por exemplo, uma vida de fantasia e ilusão que se esvai entre os dedos. Agora podemos dizer à pessoa: seja bem-vindo ao mundo real, o único lugar onde você tem a chance de ser realmente feliz. A perda de um relacionamento doentio, marcado por agressões, ofensas e supressão da liberdade, pode se constituir em uma grande bênção, desde que saiba lidar com vazio que ficou no lugar. A princípio a dor é grande, mas depois se percebe que pode andar e respirar livremente. 

Encontramos na bíblia algumas perdas que são ganhos. A estéril Ana queria tanto um filho e chorou amargamente por anos na esperança de conceber. Finalmente, ao ser ouvida por Deus, deu à luz a Samuel. Podemos até imaginar o amor daquela mãe por este único filho. Entretanto, somos surpreendidos por sua decisão: “Quando for o menino desmamado, levá-lo-ei para ser apresentado perante o Senhor e lá ficar para sempre” (1Sm 1.22).

Aquele amor de mãe aceitou a perda do filho para consagrá-lo a Deus. De ano em ano ela fazia-lhe uma túnica e viajava até o templo para revê-lo.  Obviamente não foi uma decisão fácil para ela. Imagino que somente uma mãe que sonha com o seu filho, e não o tira da cabeça, é que pode fazer uma roupa do tamanho certo, mesmo sem vê-lo diariamente.  

A vida é assim, e em última análise nada temos ou possuímos. Tudo pertence a Deus. Jó aprendeu isso a duras penas, quando perdeu tudo o que possuía de mais precioso: “O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21).

Tenho aprendido também que diante de perdas inestimáveis, não há palavra que explique ou console. Costumo fazer como aqueles três amigos de Jó, que diante do sofrimento, “sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noite; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande” (Jó 1.13).

Perder sempre dói, e portanto não adianta dizer para não sofrer ou chorar. Aliás, chorar a perda é necessário, limpa a alma e ajuda a superar.

Quando perdemos alguém que nos é muito valioso, na verdade nunca o perdemos totalmente. De alguma forma ele continua vivo em nós, e fará parte de nossos pensamentos e sentimentos por toda a vida, pois aquela pessoa deixou uma marca, e por isso ela nunca desaparecerá. Há um lugar dentro de nós onde guardamos tudo aquilo que tem valor, mesmo que não exista mais, nem possamos tocá-lo, falar-lhe, ou ouvi-lo.

Tornamo-nos incapazes de viver bem quando o medo de possíveis perdas domina os pensamentos. A partir daí a vida se transforma numa constante fonte de preocupação, cuidado, e inquietação. E já não há mais tranqüilidade, ou descanso.

Para viver o evangelho em sua plenitude implica em perder. Quem “perde” a vida por causa de Cristo, ganha. Só o grão de trigo que cai no chão e morre pode produzir fruto.

Maturidade é saber perder. E na perda ganhar. Algumas perdas são necessárias, pois elas nos libertarão para aquilo que Deus quer nos acrescentar. Só quem permite estar de mãos vazias diante do Eterno, pode receber algo que as preencha. Creio que a fé em Deus tem a propriedade de nos ajudar a ocupar os vazios que carregamos na alma.

Por Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br


quinta-feira, novembro 18, 2010

PÃO QUENTINHO - CXXIX‏

Cruz Crédulo

Confesso que fiquei perplexo em ver nesta última eleição como foi disseminado pela internet o pânico caso ocorresse a vitória de determinado candidato. Foram manifestações de todos os setores evangélicos, beirando a paranóia. Nas inúmeras mensagens que recebi havia sempre algo em comum: um suposto conhecimento de alguma potestade espiritual que estava em ação. 

O que mais me chamou a atenção é que nunca houve esse aparente “discernimento” espiritual antes, nas iniqüidades que se acumularam no Brasil nos últimos quinhentos anos. Nunca ninguém se levantou contra as iniqüidades de um velho “coronel” que se tornou presidente, que tem mantido o povo de seu estado sob a mais profunda miséria há meio século, fazendo dele o estado mais pobre do Brasil, com constantes surtos de difteria e disenteria, e o maior índice de mortes de prematuros.... Mas nunca ninguém se levantou contra isso. Um outro presidente, dos mais nefastos, se elegeu ganhando de um candidato que foi ”satanizado”, mas seu governo não chegou ao fim. Por ironia, foi o único presidente que sabidamente fazia rituais de magia negra nos porões do palácio, mas nunca ninguém se manifestou contra essa “iniqüidade”.

Não posso dar credibilidade a tantas visões “espirituais” com aparência de discernimento, pois diariamente nos é repassado através do correio eletrônico, com a mesma “credulidade”,  coisas do tipo:
“Está faltando um dia no universo e um crente da Nasa descobriu a resposta na bíblia quando Josué fez o sol parar”. Pura invenção!

“Foram encontradas as ossadas de homens gigantes que comprova que a Bíblia tinha razão”. Tudo montagem!

“Bill Gates é a besta”. Eu o acho muito esperto!

“Hellmanns significa homem do inferno”. Quanta criatividade!

“Não tome o suco Ades, porque no grego Hades significa inferno”. Jesus!

“Não usem fraldas Pampers nem sabão Ariel pois a Procter & Gamble fez um pacto com o Diabo”.  Sem comentários!

“A frase “Ra-tim-bum” que cantamos no Parabéns é uma maldição persa que significa “Eu te amaldiçôo”. Essa é a campeã!

“Repasse esta mensagem pois a Aol vai rastrear e pagar US$ 0,05 para a menina da foto que tem uma doença rara na Eslovênia....”. E o solidário internauta dispara tão piedosa mensagem para todos os seus contatos!
Ninguém verifica se as coisas são de fato assim. Este é o mal da credulidade: acredita em toda aparência de sobriedade espiritual. A credulidade é o mal do nosso século, pois confunde fé com acreditar em qualquer coisa que “pareça” razoável. É por esse motivo que milhões se curvam aos Macedos e Waldemiros, que usam uma “aparente” lógica bíblica para arrebatar milhões de seguidores. Tente discutir com alguns de seus fiéis e você entenderá o que significa estar cego pela credulidade.

A alma do brasileiro é assim, crédula. E há boas razões para isso:

1º)Temos sangue tupiniquim nas veias;
2º)Fomos catequizados pelo catolicismo português que para cá veio, o mais retrógrado e obscurantista de toda a Europa;
3º)A forte presença de escravos africanos trouxe influências, simpatias e visão de mundo que nossos pais e avós nos legaram;
4º)Atualmente tudo nos é explicado pela visão espiritista-esotérica (não há um filme ou novela que não trate a reencarnação como fato).

Não tenho dúvidas que inúmeras práticas evangélicas hoje tem origem nas poderosas influências que a nossa religiosidade herdou.

De onde vem a crença de que “objetos” podem ter em si poderes espirituais? Ora, isso é a chamada crença animista, típica dos povos primitivos. Por que certos pastores pedem para colocar um copo d’água sobre a TV enquanto ele ora? É uma doutrina espiritista (água fluidificada), e a bíblia jamais ensinaria tal prática. De igual forma, as roupas dos doentes se transformaram em “pontos-de-contato” (kardecismo) ao orar para algum enfermo. E o poder e fascínio que determinados líderes exercem é próprio das figuras do xamanismo.

Impressionante como que pastores até então tido como referências, se deixaram levar por uma pseudo-espiritiualidade que encontrou forte eco junto aos fiéis, pois a nossa alma é assim, ainda está carregada desses valores, dessa visão. O neopentecostalismo nunca abandonou as antigas crenças que os seus fiéis trouxeram – apenas deu-lhes uma nova roupagem.

A verdadeira fé em Deus é aquela que nos liberta de toda visão dominante no inconsciente coletivo dos povos.

Não há espaço para ponderar, analisar, pesar os fatos. Foi dito por um pastor que uma candidata sabidamente cristã era “duas caras” por não ter se manifestado radicalmente num determinado tema. Toda sua vida passou então a ser analisada por aquele único aspecto. É aquela visão maniqueísta de que o adversário é “totalmente mau” e o meu favorito é “totalmente bom”.

Esse tipo de coisa valoriza esse tipo de pastores, pois mostra a sua “espiritualidade” de enxergar coisas que ninguém mais vê. Impressionante como se assemelha ao gnosticismo que pretendia dominar a igreja nos seus primórdios e mostrar uma espiritualidade mais “fervorosa” que a dos apóstolos.  Paulo se refere explicitamente a eles quando escreve aos Colossenses: “não se deixem levar por pretensa humildade, culto dos anjos, visões, não manuseies isto, não proves aquilo...”. Judas diz que são como “sonhadores alucinados” (Jd 8) e “aduladores dos outros, por motivos interesseiros” (Jd 16).

A impressão que se tem é que aqueles gnósticos eram muito espirituais. Mas não eram, eram místicos e obscurantistas. A questão é que isso seduz, porque mexe com o imaginário!

Não podemos enveredar por esses caminhos. Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, ensina Tiago, pois a sabedoria lá do alto é “pura, pacífica, tratável, plena de misericórdia, e imparcial” (Tg 3.13-17). O apóstolo Paulo nos aponta para uma postura sóbria, serena e equilibrada.  Por esse motivo, diz ele, “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe os vosso pensamento" (Fp 4.8)
  
Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br

quarta-feira, outubro 13, 2010

PÃO QUENTINHO - CXXVIII‏

QUASE, QUASE, POR UM TRIZ

“Por pouco me persuades a me fazer cristão” (At 26.28)

Jesus falava a grandes multidões. Enquanto ele fazia milagres e multiplicava pães, não sobrava lugar. Mas quando começou a mostrar o caminho da cruz e das dificuldades de uma vida de fé num mundo sem Deus, foram embora.

A moderna definição de ateísmo não é mais a negação do Divino. Poucos negam a existência de Deus. Pessoalmente não conheço ninguém que o faça. Na verdade, hoje Ele é visto como um Ser fraco, não relevante no cotidiano, e que vive “preso” a um lugar sagrado chamado igreja, capela, salão, sinagoga ou catedral. Nessas condições de não-interferência na vida, Ele não é rejeitado, e até mesmo o procuram em duas ocasiões: já viu alguém recusar uma cerimônia de casamento para si ou o negar o batismo para os seus filhos?

Não é que as pessoas não querem Deus, elas querem um que não faça muitas exigências, um Deus mais “light”, vamos dizer assim.

Quando Paulo esteve preso, o rei Agripa manifestou grande interesse em conhece-lo. Após ouvir de Paulo uma longa explanação  das virtudes de uma vida de fé, o rei se dirigiu a ele e disse: “Rapaz, por pouco me persuades a me tornar cristão” (At 26.28).

Conheço muita gente boa, honesta, inteligente, que traria grande contribuição para o Reino de Deus, mas que também “trava” diante do Mestre. Não vai. Jesus, para eles, é um personagem histórico bom e admirável. Só isso.

Quais são os mecanismos que contam para defender-se psicologicamente de uma real conversão? Tenho algumas sugestões:

Primeiro: todo mundo tem alguma coisa mais importante para fazer antes de seguir a Deus. Isso evidencia que não há um correto discernimento das verdadeiras prioridades da vida. Aí vem Jesus e diz que o seu Reino deve ser buscado antes de tudo, e que as demais coisas haveriam de ser completadas. Em outras palavras: a busca do Reino é que dá um sentido a tudo o mais.

Segundo: medo de ceder, de perder o controle sobre a vida, de admitir que estava “errado”, medo de re-começar em outras bases. É próprio da natureza humana resistir a mudanças intimas profundas, pois elas ameaçam o nosso senso de identidade

Terceiro: Há um medo de ser confrontado por amigos ou familiares, embora creia “secretamente”, como fizeram Nicodemos e José de Arimatéia, “pelo receio” que tinham de seus pares (Jo 19.38-39). Talvez isso explique porque há tão poucas conversões de artistas e famosos quando estão no auge. É mais fácil vê-los confessando sua fé no ocaso da carreira.

Obviamente trata-se de prevenções imaginárias que carecem de fundamento. Deus não rouba a identidade de ninguém, melhora. Deus não tira, acrescenta. Ele não manieta, nem oprime, liberta.

A existência de uma realidade espiritual passa despercebida para a maioria das pessoas, e elas ficam somente  com o óbvio que os olhos enxergam. Faz-me lembrar a história do sujeito que visitou um hospital psiquiátrico e perguntou ao diretor como ele decidia internar um paciente. O diretor disse que enchia uma banheira de água, e entregava um balde, um copo e uma colher. Em seguida pedia que a esvaziasse, e dependendo da resposta era internado. Suspenda esta leitura um instante e pense na resposta que daria. Creio que tanto o visitante, quanto você, encontrou no “balde” a melhor opção, não é mesmo? Mas basta tirar a tampa do ralo. A vida é assim: existem algumas respostas que estão debaixo do nariz, mas não enxergamos.

A bíblia afirma que o “deus” deste século cegou o entendimento dos incrédulos para que não percebam a realidade de Cristo (2Co 4.4). Há um véu posto sobre os olhos,  há uma cegueira coletiva, e o pior cego é aquele que não quer ouvir. É por isso que num mundo secularizado e materialista como o nosso, seguir a Deus é visto como loucura.

Por outro lado, vivemos um aparente “boom” de religiosidade que passa a impressão que as pessoas querem mais de Jesus, mais do Espírito. Tremendo engano. A maioria das pessoas que entram nas igrejas vão com a mesma mentalidade  de quem se dirige ao shopping para comprar algo que satisfaça um apetite ou desejo (E.Peterson). Elas querem Deus sim, mas apenas de “certa forma”. Resumo da ópera: Deus é aceitável, desde que Ele não interfira nos negócios, nos projetos, na forma de vida, nem venha corrigir ou disciplinar, e que também não imponha goela abaixo um livro com mais de dois mil anos como regra de fé e conduta.

No fundo, estão zombando de Deus, embora, obviamente, ninguém admita tal coisa.   

Tive o prazer de ouvir a canção(*) de uma judia russa radicada nos EUA, chamada Regina Spektor. É uma belíssima letra que diz mais ou menos o seguinte...

Ninguém ri de Deus em um hospital.
Ninguém ri de Deus em uma guerra.
Ninguém está rindo de Deus quando está passando fome, frio ou é muito pobre.

Ninguém ri de Deus quando o médico liga depois de alguns exames de rotina.

Ninguém está rindo de Deus quando ficou muito tarde
E o seu filho ainda não voltou da festa.

Ninguém ri de Deus quando seu avião começa a tremer incontrolavelmente.

Ninguém está rindo de Deus quando vê a pessoa que ama
De mãos dadas com alguém.

Ninguém ri de Deus, quando a polícia bate em sua porta
E diz "Temos más notícias, senhor!".

Mas Deus pode ser engraçado em um coquetel,
Quando se ouve uma boa piada sobre Ele...

Deus pode ser engraçado
Quando lhe é dito que ele lhe dará dinheiro se você ora do jeito certo...

Esta é a mais pura verdade.

Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br

(*) clique AQUI para ouvir a música.

segunda-feira, setembro 13, 2010

PÃO QUENTINHO - CXXIV‏


SEPARADOS PARA ESPALHAR ALEGRIA


“Separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2)


Em todos os tempos e épocas vemos Deus separando homens e mulheres para realizarem o chamado divino em suas vidas. São os chamados “santos” (do Gr. Hagios e do Hebr. Kodesh) que o Eterno separou  para si, para anunciarem as Boas Notícias de reconciliação a todo aquele que desejar ouvir.

O santo de Deus não é o ‘separado do mundo’ para não se contaminar com suas mazelas, como os fariseus pensavam, mas é aquele que aceitou sobre si o seu chamado, a sua missão, e o cumpre.  Sobre Paulo, por exemplo, recaía o chamado de pregar o evangelho, e ele chega a dizer: “ai de mim se não o fizer” (1Co 9.16). Ou seja, a vontade de Deus está aí sobre nós, e podemos reagir favorável ou desfavoravelmente a ela. Entretanto,  é importante saber que nossos atos e decisões gerarão um juízo divino sobre eles.

Servir a Deus é entregar a nossa agenda a Ele para que nossas prioridades sejam re-ordenadas.  Na verdade, só existem dois tipos de pessoas: as que dizem a Deus – “seja feita a Tua vontade”, e aquelas que darão vazão somente a seus desejos. As primeiras desejam que Deus reine em suas vidas, no lar, nos negócios. As últimas pretendem seguir os seus instintos. Cabe aqui uma advertência: lutar contra a vontade de Deus sobre nossa vida é o caminho da infelicidade e o início do naufrágio pessoal.

Rudes pescadores cuja única pretensão era jogar diariamente suas redes ao mar,  e sustentar suas famílias com os peixes vendidos, foram chamados para um propósito que jamais poderiam sonhar.

O que dizer de Gideão, malhando o trigo para sustentar sua família, e Deus o escolhe para livrar toda a nação das mãos dos opressores midianitas. Ele retruca, dizendo-se incapaz, mas Deus insiste no Seu propósito. Lição: Às vezes estamos vivendo tão absortos, cuidando de ‘nossa’ sobrevivência, pensando em ‘nossa’ família, em ‘nossas’ dores e necessidades, e vem o Senhor e nos diz: “Eu não quero mais vê-lo tão preocupado com as suas coisas... deixe que delas Eu cuido. Eu tenho um ‘servicinho’ pra você”.

Entretanto, há um preço em servir a Deus. Quem é confrontado pelo Evangelho é desafiado a apostar tudo nele. É isso o que acontece nas parábolas de Jesus: o homem que achou a boa pérola, foi e vendeu tudo o que possuía para ficar com ela. O que achou o tesouro no campo também.

O escritor Leo Buscaglia conta a história do garoto Jamie que  estava disputando um papel na peça da escola. Sua mãe tinha procurado preparar seu coração, pois ela temia que ele não fosse escolhido.   No dia em que os papéis foram anunciados, ela foi buscá-lo. Chegando ao portão, Jamie correu para a mãe, com os olhos brilhando de orgulho e emoção:

- “Adivinha o quê, mãe!”.  E disparou as seguintes palavras:

- “Eu fui escolhido para bater palmas e espalhar alegria!”

Fico me perguntando se não é justamente esse chamado que Jesus tem para todos nós, mas temo que só uma pequena parcela de cristãos compreendeu isso.  A maioria ainda está demasiadamente preocupada consigo mesma. Não entenderam ainda nada do que Jesus mostrou em todo o seu ministério:  a importância da simplicidade, da misericórdia, da tranqüilidade dos pássaros, não entendeu nada sobre o perdão, sobre a graça que vem sobre maus e bons.....

O mundo não suporta mais religiosos cheios de “queixavor”  (um pouco de queixa, um pouco de louvor), estéreis, briguentos, nuvens carregadas sem chuva.  De nada vale ser chamado de “crente” ou “evangélico”, ou qualquer outro nome, se não temos espalhando nada de bom à nossa volta.

É engraçado que as pessoas acham que o seu chamado ou a sua missão estão longe, num lugar diferente de onde elas se encontram. Porém, na maioria das vezes o chamado a servir está justamente onde você está: em sua casa, no seu bairro, em seu trabalho, em sua igreja. O gadareno liberto de demônios queria seguir a Jesus e fazer missão transcultural. Bondosamente o Mestre o envia, mas de volta pra casa: “volta pra tua esposa, pra tua cidade, para os teus filhos... e anuncia-lhes o que Deus fez por ti”.

No Reino de Deus não há serviço menor ou maior, chamado menos importante ou mais importante. Antes de Davi ser ungido como  rei em Israel, ele foi escolhido para guardar o rebanho de seu pai. Sim, escolhido para afugentar lobos, e atirar pedra em chacais. O genuíno amor está sempre preocupado com o específico, e não apenas com o geral, com alguém, uma pessoa, e não com várias coisas (E.Peterson). É fácil deixar de dar valor às coisas comuns e presentes à nossa frente, mas Deus tem essa maneira peculiar de nos apresentar Seu chamado. Tudo que Davi fez foi com um coração tão puro, que o Senhor o escolheu para ser rei de uma nação.

É preciso aprender que na vida nem sempre seremos contados entre os melhores, nem teremos beleza marcante, e provavelmente seremos reprovados nos melhores concursos. E é possível que durante toda a nossa vida não sejamos conhecidos por mais de uma centena de pessoas. Por isso sempre gosto sempre de pensar nos inúmeros anônimos servidores do Rei, que estão espalhando bondade, alegria, e uma forma diferente de viver, pessoas que vale a pena estar ao lado delas.

Creio que Deus sempre está chamando pessoas a viver de uma forma diferenciada no mundo, ainda que anônimas. Talvez a oração que Deus mais se agradaria em ouvir de nossos lábios, não seria o pedido de um aumento de salário, ou um carro melhor, mas: “Senhor, ensina-me a viver, ensina-me a ouvir Teu chamado. Não tenho nada de especial, mas aquilo que sou eu ofereço integralmente a Ti. Amém”.


Por Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br
 

segunda-feira, agosto 09, 2010

PÃO QUENTINHO - CXII

SÓ POR HOJE

 “Não há um justo; nem um sequer”

Não há nada mais nefasto na vida do cristão que a presunção. Presunção de justiça própria, presunção de bondade, presunção de virtuosidade. É o orgulho espiritual em sua forma bruta.  Em contrapartida, quem freqüenta os Alcoólicos Anônimos (AA) –  que não são igreja –  possui uma consciência muito clara de seu estado e de sua doença. No “Programa dos 12 Passos”, criado por eles em 1935, há várias confissões, entre elas: “Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”. Como afirmou Blaise Pascal: “A grandeza do homem é saber-se miserável”.

Cada um que chega às reuniões com o seu vício é recebido com sorriso largo e gestos de apoio. Fiquei pensando que nenhuma igreja saudaria com alegria alguém que se confessasse alcoólico ou dependente de drogas. Nos AA o participante admite a responsabilidade total e completa por todo o seu comportamento. Nas igrejas a culpa quase sempre acaba caindo nas malvadezas do Diabo. Lá ninguém diz que “era” alcoólico cada vez que se apresentam, pois percebem que diariamente  lutam contra o mal que continua “existindo” dentro de si. Seria muito bom que cada cristão também reconhecesse  sempre que “é” pecador.

Não há espaço para a opulência ou superioridade. “Se tenho de me gloriar, me gloriarei nas minhas fraquezas”, diz humildemente Paulo. 

A vida do cristão se dá dia após dia. Se ontem falei e agi em santidade, não há garantias de perpetuidade desses gestos agradáveis a Deus amanhã. Se eu der ocasião à carne, por achar que preguei um piedoso sermão, a vaidade me dominará. O mesmo Pedro que acabara de confessar “tu és o Cristo”, logo em seguida ouve de Jesus um “arreda-te Satanás”, quando ele tenta impedir o Mestre de caminhar para a cruz.

Ninguém cai de uma vez, mas cai-se aos poucos. O salmista confessa que faltou pouco para escorregarem os seus pés (Sl 73.2). É preciso vigiar, é preciso descobrir as artimanhas e artifícios que o nosso inconsciente se utiliza para parecermos bons a nós mesmos. 

Lidar com os pecados mais visíveis e grosseiros sempre foi a primeira grande preocupação do neoconvertido. Em pouco tempo ele se mostrará todo gabola porque  já não bebe mais, não furta, ou adultera, enquanto vai sendo derrotado diariamente pelas “pequenas raposinhas”: má vontade, mau humor, intolerância, olhos maus, pensamentos mórbidos, descontrole verbal,  inimizades..... Antes “furtasse”, ao menos isso o envergonharia e tomaria consciência de seu estado (“Sê pecador e peca fortemente, mas crê muito mais fortemente na Graça de Cristo”, escreveu Lutero a Melanchton). Entretanto esses problemas sutis passam imperceptíveis aos seus próprios olhos, pois quem convive diariamente com uma “leve” febre acaba achando-a normal, sem necessidade de tratamento.

Mas por que muito cristão sincero não percebe essas mazelas? Há um mecanismo de defesa em ação que tenta “eliminar” o impulso mal dos domínios da consciência através da repressão, mas ele continua a agir e a exercer profunda influência sobre a pessoa, apesar dela não se aperceber. Resumindo: sempre há uma distorção no olhar que lançamos sobre nós mesmos, e requer coragem olhar-se no espelho da  Palavra e ser sensível ao Espírito Santo que habita em nós.

Não tenho dúvidas que estes precisam tanto de Deus  quanto os AA, os NA (Narcóticos Anônimos) e os N/A (Neuróticos Anônimos). Ambos carecem da misericórdia divina: a diferença é que um reconhece e outro não. Um luta diariamente com sua fraqueza, seu pecado, suas tendências, permanecem atentos a cada impulso do inconsciente e a cada desejo que aparece de forma subreptícia (dissimulada). Outro se enxerga acima do mal.

Seguir Jesus implica em passar pelo crivo do Espírito as pulsões, vontades e desejos.  Precisamos de cura, e isso não é fácil, ela vem devagar, com consciência, com vontade, e com ajuda do Eterno. Não creio em atos heróicos de supressão da carne, mas num processo que pede minha atenção dia após dia. Por isso:

Só por hoje quero fazer  um silêncio interior, e ouvir a voz de Deus sussurrando em meu coração.  Tentarei não murmurar das circunstâncias difíceis.

Só por hoje  quero aprender a viver a minha vida presente, não ser dirigido pelo passado, nem ser tomado de ansiedade pelo futuro.

Só por hoje mostrarei simpatia por alguém que me tira do sério, terei mais paciência nas adversidades, e falarei devagar e com mansidão.

Só por hoje não exigirei das pessoas que as coisas sejam exatamente da maneira que eu quero: respeitarei a forma que os outros vêem.

Só por hoje não quero ficar me remoendo com os erros cometidos. Quero viver pela Graça e saber que em Cristo sou amado, liberto e perdoado.

Somente por hoje não farei drama de meus problemas, e orarei por um amigo distante.

E amanhã? Bem, se hoje eu conseguir viver de forma agradável a Deus, já serei mais feliz.  Quando amanhã chegar será outra vez mais um hoje.... então vou começar tudo novamente.

Pr. Daniel Rocha - dadaro@uol.com.br

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